14.3.11

A subversão da gentileza

Quando abordo o papel dos mediadores em cursos ou palestras sobre o tema, costumo salientar a importância do conhecido “CHA” – Conhecimentos, Habilidades e Atitudes. A pessoa pode ter pós-doutorado em mediação de conflitos, mas se nunca realizou uma mediação, não pode ser considerada mediadora. Da mesma forma, intermediar sem qualquer técnica ou conhecimento dos princípios da mediação a conversa de duas ou mais pessoas não faz de alguém um mediador. É no ponto de equilíbrio entre o conhecimento (teoria) e a habilidade (prática) que reside a mediação. Mas os verdadeiros mediadores são aqueles que refletem conhecimentos e habilidades em suas atitudes cotidianas – e uma dessas atitudes condiz com a gentileza. Ser gentil em nosso país representa quase uma subversão, e por isso é tão interessante.

Notícia recente revela o desvio de quatro bilhões de reais dos cofres públicos realizados por uma máfia em Brasília. Enquanto isso, o maior picareta do Brasil é praticamente endeusado através da realização de um filme sobre sua vida. Mais ao sul do país, como se a população de São Lourenço já não tivesse sido suficientemente prejudicada com os alagamentos que assolaram a cidade, oportunistas de plantão utilizaram um carro de som para noticiar a falsa notícia do risco de uma nova enxurrada. Com isso, pretendiam efetuar furtos nas residências que fossem abandonadas por seus donos. A propósito, não pensem que a comunidade internacional se sensibiliza com os frequentes alagamentos e deslizamentos de terra ocorridos no Brasil; na opinião de muitos especialistas, nosso país já deveria ter investido em projetos preventivos há muito tempo, semelhante aos existentes no Japão, por exemplo (e, convenhamos, a julgar pelos desvios de Brasília, dinheiro é o que não falta para isso!). Sinceramente, às vezes tenho vergonha de ser brasileira.

Mas não creio que as abordagens “Salve-se quem puder”, “Cada um por si e Deus por todos”, “Se todo mundo faz, por que eu não posso também?” e semelhantes sejam adequadas à questão. Esses são os caminhos mais fáceis. Diante dos valores que transbordam nos noticiários do país, ser gentil é quase um ato de desobediência civil. Além de ser uma atitude bem mais corajosa e criativa, a gentileza pode tornar as pessoas mais atraentes e felizes, de acordo com P.M. Forni, professor e fundador da Civility Initiative, da Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos.

Portanto, queridos mediadores, aspirantes e simpatizantes, sejamos gentis! Mesmo se conseguirmos obter ótimos acordos em nossas mediações, do que isso adianta se, ao chegarmos em casa, formos distantes ou estúpidos com nossos familiares? Ou, como podemos mediar uma disputa entre colegas de trabalho se desconsideramos nossos próprios colegas? Ou, ainda, como podemos criar um ambiente de tranquilidade na mediação se no caminho para nosso local de trabalho passamos cortando a frente dos motoristas e xingamos o pedestre que foi descuidado ao atravessar a rua? A gentileza não é uma qualidade inata e nem é privilégio dos “bonzinhos”. Representa um desafio diário, digno das pessoas que tem a coragem de nadar contra a maré.
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Referência:
KALIL, Lisiane Lindenmeyer. A subversão da gentileza. Disponível em:  < www.mediarconflitos.com >. Data de acesso.

Um comentário:

  1. Eliana6:55 PM

    Gentileza realmente torna as pessoas mais atraentes, quero sempre estar perto de pessoas gentis.

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