20.2.11

A mediação na TV

A mediação de conflitos ingressou nas séries de televisão. Há um mês estreou “Fairly Legal” no canal norte-americano USA Networks (ver vídeo abaixo), uma história sobre Kate, advogada frustrada com o sistema legal que resolve se tornar mediadora. Essa nova profissão representa o diferencial do programa.

Michael Sardo, criador da série, revelou que escolheu o tema da mediação pelas experiências vividas por seus amigos que estavam se divorciando: “Todos começavam de forma amigável, sabendo que se tratava apenas de dividir as coisas e que não haveria problema. No entanto, em algum ponto da separação, no momento em que entravam os advogados, era guerra”. Então, quando viu alguns casais se divorciando com mediadores, conseguindo conversar e encontrar soluções, Sardo começou a se interessar pela mediação.

Para os que não esperam questões muito aprofundadas sobre o tema, “Fairly Legal” pode ser um bom entretenimento. Entretanto, alguns aspectos chamam a atenção quanto ao contexto da mediação e ao desempenho da mediadora.
No episódio piloto da série, por exemplo, há uma disputa envolvendo um pedido de indenização e Kate é chamada pelo juiz da causa para resolver a situação. “Encontre uma maneira de manter esse caso fora do meu tribunal. Você tem dois dias”, disse o magistrado, com o objetivo de aliviar sua agenda de trabalho. Ao questionar prazo tão pequeno, uma vez que havia um pedido indenizatório de U$ 10 milhões e eram três os requeridos, a mediadora recebeu em troca um prazo ainda menor. “Encontre uma solução ou irá para prisão por desacato ao tribunal”, acrescentou o simpático juiz.

A mediação ocorreu na sala de reuniões do escritório onde Kate trabalha. O requerente, sua noiva e os requeridos já estavam no local quando a mediadora chegou, e todos discutiam. Kate, então, utilizou um método para interromper as partes jamais visto em qualquer livro sobre mediação: assobiou forte com os dois dedos entre os lábios - e todos pararam. Após ouvir uma breve explicação sobre o que aconteceu, a mediadora percebeu que o cerne da questão estava entre o requerente e sua noiva e os requeridos eram apenas bodes expiatórios. Assim, pediu para que os requeridos deixassem a sala. Depois de um longo tempo de conversa e um visível impasse entre o casal, a mediadora fez um intervalo. Quando voltou à sala de reunião, sugeriu uma solução bastante não ortodoxa para terminar com o conflito (que não será revelada aqui para não estragar a surpresa de quem não viu a série), e como o casal não aceitou a sugestão, ela mesma agiu, o que causou um impacto entre os mediandos e acabou por reaproximá-los. Terapeutas de casal poderiam acolher essas abordagens não convencionais, mas para uma mediadora esses procedimentos são considerados excessivos.

A personagem Kate é jovem, bem humorada, idealista e acaba se envolvendo pessoalmente nos casos que atende, o que boa parte das vezes compromete sua imparcialidade. Consegue ver a essência dos conflitos dos outros, mas tem dificuldades em lidar com os seus próprios. Além disso, em diversas situações age como justiceira, pois não mede esforços para buscar o que considera justo, ainda que atue à margem da lei. Os casos atendidos em geral têm um desfecho amigável por mérito da própria mediadora e suas sugestões mirabolantes, que a aproximam bem mais da atuação de uma conciliadora.

Esperamos que essa série sirva para divulgar a mediação e não para confundir ainda mais o público sobre o papel dos mediadores em comparação a outras práticas similares. Vamos ver qual será o impacto de “Fairly Legal” quando estrear no Brasil.

Para saber mais:

a) Propaganda da série:


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