29.3.07

Mediação a domicício

Fonte: Diário de Notícias - Lisboa - Portugal

Escrito por: Licínio Lima

Ao apostar em alternativas aos tribunais comuns, o Ministério da Justiça (MJ) admite criar um sistema de justiça ao domicílio. A experiência vai ser feita no âmbito da mediação familiar, com os mediadores a deslocarem-se à residência das pessoas para aí promoverem um acordo entre as partes em conflito. A revelação foi feita ontem pelo secretário de Estado da Justiça.

"Vamos realizar a mediação familiar em estruturas que já existem, em serviços públicos, julgados de paz, centros de arbitragem, municípios, freguesias, e até nas casas das pessoas se nos disserem que isso é mais conveniente para resolver o litígio. É também uma hipótese que não descartamos", afirmou João Tiago Silveira ao DN no final de uma acção de formação para juízes de paz que decorreu ontem na Direcção- -Geral da Administração Extrajudicial (DGAE), em Lisboa.

A mediação familiar como alternativa aos tribunais de família - apenas possível quando os litigantes acordam usar essa via - já existe desde 1999. Porém, está circunscrita ao distrito de Lisboa, e apenas aplicada quando se trata da regulação do poder paternal, ou do incumprimento do exercício desse poder.

Mas em breve "o âmbito da competência da mediação familiar vai ser alargado a todos os conflitos que afectam as relações familiares", revelou o secretário de Estado, anunciando que o âmbito territorial vai, igualmente, ser alargado a outros três distritos, sem revelar quais.

A mediação familiar funciona actualmente na DGAE. Trata-se de um método simples de resolução de litígios parentais, sem grandes burocracias. Quando as partes envolvidas acordam seguir esta via, para fugir aos tribunais de família, mais formais e demorados, entra em acção um mediador da DGAE - geralmente jurista - que tenta promover um acordo. Cabe aos litigantes construírem uma decisão justa.

Mas se até agora as pessoas tinham de se deslocar à DGAE, o MJ vai abrir a possibilidade de os mediadores da DGAE passarem a ir a casa das pessoas. "Sempre que se achar que isso é o mais conveniente para as famílias", assegurou ao DN o secretário de Estado da Justiça.

A mediação é um sistema de resolução de conflitos que foge à justiça tradicional. A política do Governo tem sido a de retirar dos tribunais as chamadas "bagatelas jurí- dicas". Conforme referiu ontem João Tiago Silveira, os tribunais "têm cada vez menos espaço para justiça das pessoas singulares". Ou seja, cada vez mais o sistema judicial tradicional está colonizado pelas empresas e pela grande criminalidade. Neste sentido, a mediação extrajudical começou já a abranger várias áreas , nomeadamente a laboral e a penal, sob o controlo do poder político.

Um comentário:

  1. Como advogada especializada no direito de família, exerci desde 1998 a mediação familiar domicíliar (aconteceu por acaso).Não resta dúvida, ainda é a melhor maneira de uma solução próxima de uma realidade, em que podemos observar com lentes de aumento a situação não só familiar como também a dos filhos.
    Não acredito em advocacia sem mediação e não podemos delegar a terceiro essa função, uma vez que quando o cliente procura seu advogado estabelece um elo de confiabilidade.Os problemas jurídicos e pessoais se misturam de uma tal maneira que haverá necessidade de um mediador com visão conciliatória mas também de neutralidade bem como compreendendo e aceitando sem julgamentos as partes envolvidas
    Sabemos também que, em muitos casos a mediação terá que ser feita gratuitamente, pois vivemos em um país de terceiro mundo que não possibilita pagamentos a diversos profissionais em um mesmo litígio.
    O advogado mediador tem de usar de técnicas, mas especialmente do seu amor a conciliação, e pela família .Temos que afastar definitivamente essa cultura fundamentada no litígio
    Não somos psicólogos, mas temos que ter noções de psicologia e até mesmo de doenças psiquiátricas para que possamos indicar um profissional especializado para cada pessoa, se for necessário .Mediar é uma tarefa difícil e delicada cujo objetivo é recuperar pessoas, famílias.Não podemos permitir que ela seja feita de maneira superficial e ameaçadora.
    O trabalho é lento em alguns casos, mas obtive sucesso em muitos delesTem sido tão gratificante que optei pela mediação, abandonando, há dois anos, a advocacia definitivamente.

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