23.8.06

Como ser um(a) mediador(a) eficaz



Antes de tudo, é necessário disposição e vontade. Disposição para questionar e deixar antigos conceitos (essa talvez seja a parte mais difícil).Vontade de aprender novas práticas e habilidades.

De acordo com as psicólogas Marilene Marodin e Stella Breitman (2002, p. 477), o(a) mediador(a) deve conservar uma postura eqüidistante das pessoas em conflito, não se deixando envolver por nenhuma delas, mantendo os seus próprios princípios e juízos de valor. “Isso significa que o Mediador não participa da cultura beligerante, antes facilita a solução da disputa, o que não significa resolver o conflito ou mesmo chegar a um acordo”, complementam as autoras.

William Simkin, citado por Jose Luis Bolzan de Morais (1999, p. 154-5), de forma espirituosa elenca algumas características importantes aos mediadores:
  • A paciência de Jó;
  • A resistência física de um maratonista;
  • A habilidade de um bom psiquiatra de sondar a personalidade;
  • A característica de manter confidências de um mudo;
  • A pele de um rinoceronte;
  • A sabedoria de Salomão;
  • Demonstrada integridade e imparcialidade;
  • Conhecimento básico e crença no processo de negociação;
  • Firme crença no voluntarismo em contraste ao ditatoriarismo;
  • Crença fundamental nos potenciais e nos valores humanos, temperada pela habilidade para avaliar fraquezas e firmezas pessoais;
  • Docilidade tanto quanto vigor.

Breitman e Porto (2001) acrescentam mais algumas habilidades essenciais ao(à) mediador(a):

  • Ter noções básicas dos campos do conhecimento relacionados ao conflito (Direito, Psicologia, etc.);
  • Possuir um ótimo nível de comunicação, além de conhecer as técnicas de comunicação verbal e não-verbal;
  • Saber perguntar e escutar ativamente, com muita atenção;
  • Ser ativo no auxílio às pessoas sem influenciar em suas decisões;
  • Adotar uma postura de cordialidade a fim de favorecer um clima de respeito e de confiança;
  • Ajudar as pessoas a abandonar a posição queixosa;
  • Desenvolver a capacidade de empatia;
  • Manter uma distância adequada entre seus próprios problemas, dificuldades, crenças e preconceitos e o de seus clientes;
  • Saber decodificar o conflito, favorecendo a percepção e a compreensão do mesmo pelas pessoas envolvidas;
  • Saber reconhecer seus limites.

___________

Referências
BREITMAN, Stella; PORTO, Alice C. Mediação familiar: uma intervenção em busca da paz. Porto Alegre: Criação Humana, 2001.

MARODIN, Marilene; BREITMAN, Stella. A prática da moderna mediação: integração entre a psicologia e o direito. In: ZIMERMAN, David; COLTRO, Antônio Carlos (orgs.). Aspectos psicológicos na prática jurídica. Campinas: Millenium, 2002. p. 471-88.

MORAIS, Jose Luis Bolzan. Mediação e arbitragem: alternativas à jurisdição! Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1999.

Imagem: Obra de Selçuk Demirel


17.8.06

Indicações e Contra-Indicações da Mediação


A mediação é bastante indicada para conflitos envolvendo indivíduos que devem manter relacionamentos continuados (vizinhos, familiares, colegas de trabalho, etc.), pois visa justamente preservar essas relações.

É importante, também, que haja um equilíbrio entre as pessoas em conflito, pois, caso contrário, se houver desigualdade ou manipulação do diálogo por uma delas, a mediação não será possível.

A mediação NÃO é indicada quando:

  • Há grandes desníveis de poder entre os mediandos;
  • Não existe interesse por parte de um ou ambos os lados em resolver a disputa;
  • Há um desrespeito por parte dos mediandos aos princípios e regras da mediação;
  • Existem problemas graves e/ou crônicos de saúde mental em um ou ambos os mediandos que impedem a comunicação e a tomada de decisões.*

*Importante: Desvios de personalidade muitos de nós temos, em maior ou menor grau (e viva a diversidade!). Mas quando se trata de transtornos mentais graves, há um padrão mais rígido de comportamento, uma percepção bastante distorcida da realidade e uma certa incapacidade para lidar com questões emocionais. Sem uma ajuda terapêutica a pessoa dificilmente conseguirá estabelecer uma comunicação clara e tomar decisões razoáveis, que são algumas das metas da mediação. Embora a mediação não se confunda com psicoterapia, não se pode perder de vista essas considerações. Se a pessoa não tem condições internas de realizar uma mediação, não se deve insistir.

10.8.06

A Mediação e suas aplicações nos conflitos cotidianos



A mediação pode ser aplicada em uma variedade de conflitos e contextos, exemplificados abaixo:



Contexto familiar

  • Pactos antenupciais;
  • Separação, divórcio, dissolução de união estável (partilha de bens, alimentos, cuidados com os filhos - guarda, visitas, etc.);
  • Cuidado com os mais velhos (por exemplo, qual dos filhos cuidará do pai doente, quem dará suporte, etc.);
  • Empresas familiares;
  • Conflitos entre irmãos;
  • Conflitos sucessórios (testamento, herança), etc.

Contexto laboral

  • Conflitos entre empregados e empregadores em geral;
  • Despedida injusta;
  • Discriminação racial, de gênero, de orientação sexual;
  • Assédio sexual e moral;
  • Greves, acordos coletivos, etc.

Contexto comunitário

  • Vizinhança;
  • Conflitos entre a comunidade e o governo local;
  • Comunidades religiosas;
  • Conflitos étnicos, etc.

Contexto escolar

  • Disputas entre alunos;
  • Entre alunos e professores;
  • Entre membros do corpo docente e administração, etc.

Contexto organizacional

  • Problemas entre sócios (ex: escritórios de advocacia, clínicas médicas, sociedades comerciais);
  • Conflitos interdepartamentais;
  • Alterações entre empresas;
  • Disputas contratuais;
  • Violações de patente, marca registrada e/ou propriedade intelectual, etc.

Contexto público

  • Questões ambientais;
  • Políticas públicas;
  • Conflitos entre cidadãos e polícia;
  • Entre municípios, governos estaduais, países, etc.

Contexto penal

  • Prevenção da violência;
  • Mediação entre ofensor e ofendido;
  • Rebeliões nas prisões, etc.

Contexto médico-hospitalar

  • Erro médico;
  • Conflitos entre médicos, administradores e hospitais;
  • Negação de cobertura e/ou pagamento da seguradora;
  • Disputas bioéticas, etc.

Outros contextos

  • Consumidores;
  • Locador-locatário;
  • Construção civil;
  • Contratos em geral;
  • Danos pessoais, etc.

3.8.06

Diferenças entre Mediação e outras formas de gestão de conflitos

Há uma certa confusão entre o processo de mediação e as demais formas de gestão (ou resolução) de conflitos. Algumas pessoas imaginam estar realizando uma mediação, quando na verdade fazem uma conciliação, por exemplo.

As formas de resolver os conflitos fazem parte de um contínuo no qual varia o grau de autonomia das decisões dos envolvidos, dentre as quais se destacam:

  • Negociação
  • Mediação
  • Conciliação
  • Arbitragem

Negociação

Não há participação de terceiro, as próprias pessoas em conflito buscam, por elas mesmas, a resolução do problema (autocomposição). Pode haver ou não a participação de representantes (ex: advogados).

Mediação

Há uma “autocomposição assistida”, ou seja, são os próprios envolvidos que discutirão e comporão o conflito, mas com a presença de um terceiro imparcial, que não deve influenciar ou persuadir que as pessoas entrem em um acordo. No processo de mediação existe a preocupação de (re)criar vínculos entre as pessoas, estabelecer pontes de comunicação, transformar e prevenir conflitos.

Conciliação

A conciliação é bastante confundida com a mediação, mas são institutos distintos. Na primeira, o(a) conciliador(a) faz sugestões, interfere, oferece conselhos. Na segunda, o(a) mediador(a) facilita a comunicação, sem induzir as partes ao acordo. Esse, aliás, é o objetivo primordial da conciliação; na mediação, por outro lado, o acordo será apenas uma conseqüência e um sinal de que a comunicação entre as pessoas foi bem desenvolvida.

Arbitragem

As pessoas em conflito elegem um árbitro para decidir suas divergências, utilizando critérios específicos. Não possuem, portanto, o poder de decisão.

A negociação, mediação, conciliação e arbitragem, ainda que sejam formas consensuais de solução de conflitos, possuem várias diferenças entre si, cabendo às pessoas decidirem qual o método mais adequado ao seu caso.